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11/02/2013 Jornal do Comércio

Parceiros Voluntários defende incentivos à doação de bilionários


A secretária de formação Maria Elena Johannpeter está há 15 anos à frente da ONG Parceiros Voluntários, mesmo tempo de existência da entidade. E, daqui para a frente muita coisa vai mudar. Maria Elena sinaliza que a organização, que soma mais de 450 mil pessoas envolvidas em projetos, vai buscar sustentação financeira na capacitação do setor. E se governos e empresas cobram prestação de contas e transparência, Maria Elena, com seu tom de voz ameno e convicto, devolve exigindo menos marketing e mais comprometimento com projetos sociais, defende que as ONGs entregam com mais eficiência resultados sociais. Interessada que bilionários brasileiros possam doar mais ao setor, a dirigente condiciona as doações à redução da tributação. Atenta ao novo marco do voluntariado, em gestação no governo federal, Maria Elena previne que há risco de introduzir a novidade do voluntariado remunerado.

JC Empresas & Negócios – Depois de 15 anos, quais são os desafios agora?

Maria Elena Johannpeter – Fomos levados pela política nacional a ter de nos cadastrar em uma de suas áreas, neste caso, de assistência social, que inclui quem atua na assessoria. Isso está em vigor desde 2010, o que nos levou a revisar o foco, que era em voluntariado e pouco em capacitação gerencial. Temos certificação nos cursos de desenvolvimento das organizações, que será o trabalho daqui para frente. Somos potencializadores das demandas das comunidades.

Empresas & Negócios – E o que muda na atuação?

Maria Elena – Muda radicalmente. Antes tínhamos a sustentabilidade atendida por fundadores e apoiadores. Agora, ao virar assessoria, temos de transformar o ativo de experiência em ativo financeiro e em metodologias e tecnologias sociais. Estamos indo ao mercado oferecer este produto, desenvolvemos projetos e buscamos patrocinadores.

Empresas & Negócios – Isso não afasta os voluntários?

Maria Elena – Eles continuarão a vir. Ao dizer que estamos potencializando as organizações, a ONG necessitará de recursoshumanos qualificados. Mas não temos caixa suficiente para contratar e remunerar todos. Os voluntários virão para apoiar as causas sociais.

Empresas & Negócios – Todas as ONGs podem custear essa tecnologia de gestão?

Maria Elena – O divisor de águas foi a Rio-92, que instaurou o voluntariado organizado, ligado a uma instituição e com metas. Antes, era apenas voluntarismo ligado à vontade das pessoas.

Empresas & Negócios – Onde estão as oportunidades nesta nova fase

Maria Elena – Há um potencial muito grande, pois no terceiro setor poucos se preocupam em apoiar a boa gestão. O primeiro setor – governo - e o segundo – empresas - repassam verbas ao terceiro, mas falta preocupação sobre uma boa prestação de contas e transparência. Até porque o passivo não será resolvido isoladamente, apenas unindo os três. Este é um discurso, mas na prática ainda não há união de todos.

Empresas & Negócios – E quem está falhando? A ONG que não entrega o que promete ou falta fiscalizar?

Maria Elena – É de tudo um pouco. Mas acredito que deve ter mudança de mentalidade. Desde que começou a ter as novas regras, não houve cobrança de melhor gestão, o que se inverteu nos últimos cinco anos, com a exigência de prestação de contas. Por isso, montamos o projeto com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), para testar a metodologia Princípios de Transparência e Prestação de Contas para ONGs, entre 2008 e 2011, implantada em 76 entidades.

Empresas & Negócios – Há muito descontrole das contas?

Maria Elena – Muitas entidades se equivocam, não por má-fé, mas por ignorarem as regras de gestão. Não estou falando de 1% das 338 mil que são corruptas, estimativa minha, mas a mídia faz um estardalho que parece que é todo o setor. Há um ano houve escândalos e se estampava nas manchetes que as ONGs eram corruptas.

Empresas & Negócios – Qual é o universo que consegue prestar contas?

Maria Elena – Metade das 76 do projeto com o BID, por exemplo, conseguiu assimilar toda a metodologia de transpa-rência, pois exige governança. O terceiro setor precisa estar organizado para mostrar a aplicação a quem repassa recursos, que inclui a população. Mas o segmento não pode virar bode expiatório, pois nem o governo e as empresas têm tanta transparência. Não defendo que não tenha de ter, se não faz isso, perde verbas.

Empresas & Negócios – Como saber a destinação das verbas das ONGs?

Maria Elena – Existe um site do governo federal no qual é registrado qualquer repasse de dinheiro público, problema que é muito difícil de ser acessado, mesmo com um passo a passo para o preenchimento das organizações. O curso para operar leva três dias. Muitas optam por ajudar o público da organização a deixar alguém na frente do computador para tentar se habilitar. Mas é preciso estar atento, pois muitas empresas estão criando seus próprios institutos para fazer suas ações sociais, o que exigirá maior qualificação do terceiro setor.

Empresas & Negócios – Esta atitude das empresas não reduzirá o espaço do voluntariado?

Maria Elena – Essa não é a saída. As empresas têm de fazer muito bem o que sabem, e o terceiro setor também, um deles é de otimizar recursos, do pessoal ao financeiro. O fundador da administração moderna Peter Drucker dizia que as empresas tinham muito a aprender com as ONGs. Quando uma companhia ou governo querem fazer por si pagam mais caro. Por outro lado, o retorno de cada um fazendo a sua parte é bem maior.

Empresas & Negócios – Milionários brasileiros são bons doadores?

Maria Elena – Diria que o brasileiro é, por natureza, solidário, e isso significa também que doa dinheiro. Todavia, nossa legislação não incentiva esse gesto. Paga-se muito imposto de renda sobre o valor, diferentemente da regra americana, na qual o doador consegue abater quantias grandes do tributo devido. Aqui, valor pequeno ou grande, o imposto segue o mesmo patamar. Seria importante mudar a lei para incentivar mais contribuições. Com o sistema atual, muitos bilionários preferem doar no exterior.

Empresas & Negócios – A crise econômica reduziu os recursos para as ONGs?

Maria Elena – Sim, afetou, após 2009. Diante do menor volume financeiro, reduziu o apoio a projetos sociais. Não que isso implique fechamento de organizações, pois seusfundadores são idealistas. Muitos projetos bons e com bons resultados deixam de ser executados ou ampliados, pois dependem do financiamento. Mas tudo tem dois lados, pois pressionará na busca da gestão como fator competitivo. A Parceiros busca diversificar, com projetos como a formação de lideranças nas Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Nosso orçamento anual é de R$ 3 milhões, sendo 40% de patrocinadores e o restante de projetos, área em que pretendemos crescer, para não sermos surpreendidos por uma nova crise. Geralmente, quando o mantenedor sai, não volta. Outros mudam anualmente de foco. Com isso, projetos começam com apoio, e, depois, altera-se o público, e a organização perde o patrocínio.

Empresas & Negócios – Mas isso não é muito utilitário?

Maria Elena – Isso depende de as empresas perceberem que não estão apoiando uma marca, mas uma causa. É preciso ter visão mais ampla, não só a do marketing.

Empresas & Negócios – As novas regras contábeis beneficiam o setor?

Maria Elena - O Conselho Federal de Contabilidade (CFC) lançou resolução para que o balanço de 2012 mensure as horas e o valor financeiro do voluntariado, o que exigirá contabilizar desde 2011, para haver comparação. Como o País segue as regras contábeis internacionais, ajudamos a ONU a dimensionar o capital social dos países. Isso é muito bom, pois o projeto tem valor pelo seu trabalho, depois pelas marcas das empresas que se associam e, em terceiro lugar, pelo número de voluntários. O Banco Mundial (Bird) olha sempre para estes quesitos.

Empresas & Negócios – O que se espera do marco legal para o voluntariado?

Maria Elena – A Presidência da República estuda há dois anos a adoção de um cadastro nacional, no qual será importante decifrar o que é voluntariado. A Lei 9.608, de 1998, tem cinco artigos, é curta e clara sobre o que é o setor. O que for inventado, além disso, devemos prestar atenção. A preocupação é que se abra para o voluntário ser remunerado, o que descaracterizaria a atuação. Isso não está claro no projeto, o que pode dar margem a jeitinhos brasileiros.

ONG Parceiros Voluntários



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